segunda-feira, 4 de julho de 2016

Amizade segundo Fernando Pessoa


Meus amigos são assim:
metade loucura, outra metade santidade.
Escolho-os não pela pele, mas pela pupila,
que tem que ter brilho questionador e 
tonalidade inquietante. Escolho meus amigos
pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, 
quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. 
Meus amigos são todos assim: 
Metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. 
Quero amigos sérios, daqueles que fazem 
da realidade sua fonte de apredizagem,
mas, lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero  amigos adultos, nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam
o valor do vento no rosto, e velhos,
para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou,
pois, vendo-os loucos e santos,
bobos e sérios, crianças e velhos, 
nunca me esquecerei de que 
a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.
Fernando Pessoa

Para você que assim como eu sabe 
reconhecer o valor da verdadeira amizade.



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